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sábado, 4 de fevereiro de 2012

CRÔNICAS CAMPESINAS V: GATUNOS, GATOS


Passaram-se nove meses - assim calculei nos dedos logo depois de ter chegado.
A casa estava um lixo, tal qual a encontramos quando fomos pela primeira vez. O sinal de abandono se refletia no pó sobre os móveis, nas minhoquinhas mortas aqui e ali, no cheiro característico de casa fechada, no matagal alto que se apossou de todo o quintal, no vazamento que escorreu pela parede e danificou completamente um quadro feito de quebra-cabeça. Apesar disso, não perdemos o nosso ânimo e recomeçamos. Não do zero porque, afinal, dessa vez a casa estava pronta para ser habitada. Bastava um dia dedicado à limpeza e voilà!: teríamos o nosso canto no campo de volta.
Porém um fato agiu como um soco no estômago: a constatação do desaparecimento de certos objetos que enfeitavam a nossa varanda. Um ladrão invadira a nossa casa! A cisterna também estava aberta. O que teria lá dentro? Uma pessoa morta? Um animal?
Não estávamos mais em absoluta paz. A perturbação do Rio de Janeiro nos acompanhou para o campo. A qualquer momento poderíamos ser surpreendidos pelo gatuno que andou fazendo cagadas por ali. Seria uma pessoa perigosa? Bom, a maioria das coisas que roubou foi enfeites. Mas uma delas pode ser entendida como mensagem de bandido: o nosso holofote, que iluminava todo o quintal à noite. O ladrão fizera um trabalho limpo, de eletricista, sem deixar rastro. E era como se dissesse: "qualquer dia eu posso aparecer armado e render vocês, fazer a festa".
"Quem terá sido?" passou a ser a nossa questão diária. Cada um que cruzava o nosso caminho passou a ser suspeito. Terá sido o vizinho? Ou o nosso caseiro? Talvez algum morador da rua, alguém que passasse por lá e via que a casa estava abandonada? Quem sabe o dono do "Secos e Molhados" da esquina, cujo olhar fugidio parecia demonstrar culpa? Quando um homem estranho bateu à nossa porta para pedir R$2,00 para o almoço, eu disse: "Foi ele! Veio ver que cara os donos da casa tinham!".
Bom, voltamos do campo sem uma certeza absoluta acerca do verdadeiro gatuno. Mas desta vez notamos que uma outra presença inoportuna acabou nos sendo útil, quando encontramos, na véspera da partida, um rato morto perto da nossa garagem.
Gatos de rua fazem a ronda por ali, dia e noite. E nas tardes de calor, pegam um fresquinho no muro que separa a nossa casa da do vizinho. E geralmente bem em frente à janela do meu quarto. Na primeira vez que os vi tomei um susto. Era madrugada, e os olhos vermelhos-demoníacos dos gatos a me encarar trouxeram a certeza de um colapso iminente. Só que depois, na manhã seguinte, compreendi que se tratava de sentinelas, apenas, da nossa tranquilidade quase perdida.


2 comentários:

  1. Quando pensamos que algo nos faz mal, realmente acontece, mas se pensarmos que as vezes, nem tudo acontece para nosso mal, ficamos mais tranquilos e compreendemos.

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    1. É, no caso a existência dos gatos - que me é incômoda - acabou se tornando um bem, pois eles mataram o rato, que é um bicho que detesto ainda mais...

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