Sinceramente, isso não é uma crônica.
Melhor dizer que se trata de um breve retrato. Desfocado. Fotografia de um instante, à medida que o ônibus avançava em velocidade alta pelas ruas movimentadas do Rio.
O celular da mulher tocou e ela só atendeu depois que o refrão do pagode repetiu pela terceira vez.
Depois do “ALÔA! OI, TUDO BEM?”, um “Ai, meu Deus... Jura? Ah, meu Deus...”
– Quê foi? – perguntou uma voz de menina.
– Espera ela acabar de falar! – repreendeu uma voz de homem.
– Ah, meu Deus... E agora?... Ah...”
– Que-qui-é?, FALA LOGO!
– ESPERA, MENINA!
Voltei o meu olhar, também curioso, fazendo coro com a menina. Até eu estava ansioso com aquele “Ah, meu Deus” choroso. Alguém morreu. Estavam os três sentados no banco do outro lado. Vi através das pernas abertas de uma mulher que estava parada ao lado deles, no corredor do ônibus. A mulher do celular, na ponta; o homem, à janela, e uma menina de uns 12 anos no colo dele. Por um instante imaginei alguém contando para aquela mulher que o homem que ela rejeitou há uma semana tinha faturado a loteria. Sorri com a ironia, mas logo fiquei sério quando a ouvi contar para a menina o que, afinal, acontecera:
– A Kombi que levou a mudança do seu avô matou o seu cachorro.
– QUÊ?!
Voltou a dar atenção para o telefone, indiferente à reação da menina:
– Puxa vida, né, gente... Como é que vocês deixaram ele sair, também... Afe... Como é que foi? (nesse momento ela falava olhando para a filha, como se repetisse o que ouvia) Ah, a Kombi deu a ré e esmagou a cabeça do cachorro... Ai... E saiu muito sangue, hein? ATÉ OS MIOLO (sic)?!! Ai...Tcs... Fazer o quê, né... Bom, deve ter sujado a varanda toda... Fazer o quê, né? Ah, já lavaram? Melhor, melhor... Ai, tô acabada, viu, tô há três dias sem dormir direito... Mas me diz, como é que está o Lucas? Arrasado, né? Ele se apegou muito ao cachorrinho... Tcs, não pode, não pode... Consola ele aê. É, tô ouvindo ele chorar... Consola aê... Diz que logo-logo a cachorra dá cria de novo e ele ganha outro filhotinho. É... É... Fazer o quê, né: não tem jeito. Antes um cachorro que uma criança! Mas deixa eu aproveitar pra te contar, menina, de ontem... Pois é... Fui lá... Fuuuui...
A partir disso eu já não prestava atenção ao que ela dizia. Aproveitei que mais uma vez a tal mulher que estava em pé abriu as pernas e observei a reação do homem e da menina. Pensei: ela deve estar choramingando no ombro dele, e ele a consolando.
Que nada: compartilhavam um fone de ouvido e riam. Riam muito.
A mulher fechou novamente as pernas.
E eu voltei meus olhos para a paisagem urbana.
Um filhotinho de cachorro morreu atropelado por um motorista de Kombi imprudente. Teve a cabeça esmagada. Não deve ter sofrido em agonia nem nada. Não teve tempo nem de uivar. E os donos, igualmente imprudentes, passam por cima do fato porque é menos um para dar de comer. Até porque logo a cachorra dará nova cria. Outros virão. Que fim terão, ninguém sabe. Apenas desconfia.
Nascimento e morte: fatos sem remédio.
Fazer o quê?


Eu ja havia lido tua cronica no Reflexo e tinha adorado, embora nao comentei...Mas hoje, te lendo aqui, ficou chocada, pois conheço pessoas que dizem: Ah, ter um cachorro é melhor do que ter filhos, afinal, se der trabalho jogamos na rua, se ficar doente, morre logo e colocamos outro no lugar! - Fiquei indignada. Penso que se pudesse e tivesse um filho (pois Deus com certa razão nao lhe deu filhos), faria o mesmo que faz com o cachorro ou quem sabe pior...Ainda bem que a menina estava ouvindo outro tipo de musica que não, a melodia da morte anunciada de teu cachorrinho...Adorei antes e Amei agora! Abraços
ResponderExcluirOps! sempre trocando teclas...fiquei e nao ficou...rsrsrs
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