"As lágrimas são a alma vazando"
Foi uma criança quem disse isso. E quando li, pensei: como somos bobos em acreditar que sabemos tudo da vida só porque crescemos.
Quando criança, eu chorava muito. Por qualquer motivo. Lembro que sentia uma mágoa muito grande; era como se carregasse no estômago uma pedra pesada, da qual eu tinha de me livrar. Por conta disso, não raro eu ouvia a minha mãe, irritada, dizer: "guarde suas lágrimas para quando eu morrer!"
Eu obedeci. Do fundo do meu inconsciente.
E desde então, quando a pedra retorna, minha alma não vaza. As fronteiras que a cercam tornaram-se altas demais. Uma represa intransponível. Tanto, que é preciso forçar o choro: espremer os olhos, quase sufocar: uma lágrima que escorre é uma vitória, um ligeiro alívio.
Dentro de mim ficou um mar.
E quanto mais minhas pernas, meus braços, pés e mãos cresciam, mais água salgada se acumulava dentro de mim.
Dentro de mim ficou um oceano.
Pensei, então: por que, agindo com impaciência ou falta de atenção, somos capazes de transformar completamente a estrutura espiritual de uma criança?
Ah, que coisa divina ter ouvidos de ouvir as sábias palavras de uma criança!
Crescido, passei a ter problemas com crianças. Elas me incomodavam sobremaneira. O processo era mais ou menos esse: eu fugia delas e elas vinham, como que encantadas, atrás de mim. Quando uma delas me olhou nos olhos e disse que eu não era "gente grande", e que, portanto, não tinha de me obedecer, foi que me dei conta de que a razão pela qual eu as detestava era o fato de me sentir perscrutado pela sua inteligência e sensibilidade. Mesmo caladas, elas me mostravam que eu era um igual. Eu era também uma criança.
A negação da infância na adolescência me prejudicou de duas maneiras: eu fui apagando da memória o que vivi na infância e impedi o desenvolvimento saudável da adolescência. De repente eu estava adulto. E não sabia discernir muito bem o que eu era. Reneguei uma fase, pulei outra e não me identificava de modo algum com a última. Em qual patamar do desenvolvimento humano eu me encontrava?
Não sabia.
Continuo não sabendo, aliás, embora hoje já esteja acostumado com a minha condição - como quem perde um membro e passa a conviver, sem conflitos, com a novidade ao longo dos anos.
Não foi só o meu corpo que cresceu, afinal. Meus pensamentos amadureceram e me deram a condição de questionar isso e todo o resto da minha história. Só que não sob a ótica de um adulto mergulhado até o pescoço nas areias movediças das responsabilidades, mas de um menino que peregrina o tempo querendo apenas se resgatar.


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ResponderExcluirEu queria ter sido menino aí,
contigo. Só assim eu aprendia
antes do tempo o jeito adulto
de ser criança.
silvioafonso
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Eu, ao contario do amigo Silvio Afonso,
ResponderExcluirqueria continuar a ser criança e não
ter tido a experiencia de ter crescido.
Sou uma criança adulta ne pele de uma
mulher criança...Minha infancia foi tudo,
minha fase adulta me incomoda muito!
Queria ser livre e poder voar para bem longe,
quem sabe para a Terra do Nunca...Pesno ser esse
o motivo de eu gostar tanto da minha profissão,
estar perto de crianças, me torna uma adulta-criança!
Adorei teu post, sempre nos remetendo as nossas lembranças!
Abraços...