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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PRIMEIRÍSSIMO CONTO

Foi escrito em 2002, quando eu tinha apenas 19 anos.
Naquela época eu sofria forte e perigosa influência de Clarice Lispector e Virginia Woolf, autoras que eu lia compulsivamente, fechando meus olhos e ouvidos para todos os outros - assim como aconteceu na minha trêmula adolescência com a Agatha Christie.
A ideia veio de uma conversa que ouvi entre duas mulheres numa loja, em Búzios. Uma delas tinha uma banheira ao ar livre na sua casa e viu um passarinho pousar numa árvore para morrer. Eu adorei a história, mas a questão da morte ainda me incomodava - de modo que resolvi dar um novo destino ao bichinho, um destino que eu acreditava ser o melhor que um ser vivo poderia ter: o encontro com um amor. De uma trágica narrativa real surgiu uma ficção que punha frente a frente o espírito solitário e aprisionado e o gregário e livre - sentimentos que me tomavam por inteiro, me dividiam, e que eu tentei representar nas figuras da mulher e do passarinho, respectivamente, sendo estes, portanto, o tal segredo do título. É o meu também.
Considero este conto experimental, bastante aquém da qualidade artística que hoje, dez anos depois, já alcancei. Mesmo assim vale a pena publicá-lo, não só por ter sido o primeiro de todos, (o que o torna, pelo menos para mim, raro) mas porque de certa forma recupera um momento nebuloso da minha vida, em que eu me ligava muito mais aos fatos simbólicos do mundo do que agora.

Espero que aqueles que conseguirem chegar até o seu ponto final gostem.



SEGREDO DE PASSARINHO E DE MULHER



Repleta de espuma e pétalas de rosas até o pescoço, a mulher de repente notou a presença do passarinho. Estava empoleirado há muito tempo num galho de árvore seco, com uma aparência abatida por qualquer tristeza. As asas exaustas da insistência de um vôo sem razão, bico e olhos voltados para o chão, o passarinho aguardava. Não fizera nenhum barulho – provavelmente para não incomodar a mulher que se deliciava na banheira ao ar livre. Ela ficou a olha-lo, com certo respeito de principiante, temendo espantá-lo, sem porém abrir mão do téte-à-téte.

Um idiota, viu-se pensando a mulher, um verdadeiro palerma por se preocupar tanto com as coisas da vida (ela se orgulhava do fato de conhecer tudo, até mesmo os sentimentos; era capaz de desmembrar qualquer alma baseando-se apenas num simples olhar) Sim, o passarinho sente por alguma coisa que lhe aconteceu. Uma perda, talvez. Nada vale tanto a pena, porque tudo ao redor não passa de uma grande farsa inventada por um doido. Perde-se tempo de vida – tão curta para o que ela realmente pretendia fazer; afinal, já passava dos cinqüenta e sentia intimamente que não conseguira completar um ciclo de vida sequer ( a minha existência até aqui foi uma linha reta constante e sem obstáculos, percorrendo todos os acontecimentos numa velocidade estonteante – escrevera certa vez no que seria um esboço de biografia ). Perde-se tempo de vida lamuriando-se pelos planos que não deram certo, pelas decepções, por brigas incoerentes... o que era aquele passarinho? O que amofinava-o a ponto de deixá-lo completamente cinza e felpudo? Nada. Absolutamente nada. O passarinho simplesmente desconhecia o motivo da sua própria tristeza e este era um segredo só dele: o não saber.

Desviou a sua atenção do passarinho. Também ela fugia de preocupações naquele momento de puro relaxamento. Há mais de um mês e meio trabalhava ininterruptamente num livro de memórias, sem um descanso sequer – tendo obviamente o mínimo de horas de sono –, para no fim não conseguir quem o editasse da maneira que merecia. Mas não precisava daquilo: a arte é significativa na sua trajetória e não no produto que resulta. Fez de tudo para se sentir viva ainda, ter com o que se preocupar, escapar a todo custo do ócio cada vez mais próximo com a chegada das grandes idades. Não precisava de nada daquilo, mesmo. Tinha a sua casa confortável; dinheiro para fazer suas malas na hora que bem entendesse e viajar; um jardim enorme, florido, tão próximo de uma natureza mais viva do que ela. Contudo não era todo dia que recebia uma visita como a do passarinho (ah, de novo ele!). Sentiu que não poderia livrar-se dele só com uma leve indiferença forçada. Por mais que ele permanecesse calado, a sua aura clamava por uma desconhecida compreensão, vinda de qualquer lugar – da árvore ou dela mesma ali na banheira velha – mas a sua solidão de rolinha ultrapassava os limites possíveis entre o sutil e o ostensivo, e a mulher, por mais que tentasse, jamais o alcançaria. Ele tinha o mundo aos seus pés, e ainda assim se dava ao luxo de ser triste. Ela conhecera Paris, Veneza, Madri, Amsterdã, Moscou, Índia, Nova York... mas nunca alcançara plenamente a total liberdade que só ele tinha. Como desejara na sua infância poder criar asas! Como desejara ter coragem de se desvencilhar da mamãe galinha e provar que houve um equívoco: nascera águia e que por um triste acidente fora parar no chão. Por medo de se machucar, deixou-se ser criada junto às galinhas. Porém na sua essência ainda vivia um cosmo de águia, sim-sim. O passarinho sabia disso, reconhecia nela o predador, por isso não ousava fitá-la, nem piar. Mas ela piou, na esperança de que ele a admirasse por saber falar também a sua língua. Para quê tenho de aprender tantas coisas banais se elas não me tornam capaz de me comunicar com o que existe de mais completo na Terra? Eu só falo com gente; eu só falo de gente; e esse passarinho não vale um minuto do meu tempo! Só mesmo um ignorante como ele é capaz de dar as costas às boas coisas da vida. Deus, com tantos outros galhos cheios de vida para pousar! – Como isso a irritava – Nunca lhe faria mal – apesar de não lhe ter simpatia – jamais lhe atiraria uma pedra ou gritaria para espantá-lo, mas a verdade é que a sua presença ali a fazia pensar e pensar dói.

Acendeu um cigarro para relaxar ainda mais (antes de entrar na banheira levara um maço de cigarros, uma maçã fresca, uma taça de champanhe cheia até o gargalo e um som, que resolveu não ligar para não perturbar a voz do silêncio). O cigarro a estava matando, o médico dissera, mas se ela tomasse uma vez por dia, durante três dias, de seis em seis meses, um copo de saião com leite batido no liqüidificador, era garantido que o seu pulmão limparia pouco a pouco. Suco de manga também é muito bom – dissera-lhe um amigo artista plástico que deveria, àquela época do ano, encontrar-se em algum lugar de Portugal expondo as suas obras estranhas. E para os meus nervos, o que eu tomo? – indagara ao médico, sabendo que não haveria resposta convincente. O cigarro a estava matando.

Sua casa estava vazia e pela varanda vinha o eco das suas paixões, aspirações, ódios e invejas. Só lhe restava agora resolver o mistério do passarinho e saber quem é aquela estranha mulher que arquejava uma voz arrogante, longe de ser parecida com a sua, dentro de si. Fora obrigada a ser o que não gostaria, atuar num espetáculo do qual não lhe cabia o papel principal; fora obrigada a conhecer as coisas e aprender o significado das palavras sofisticação, beleza e cultura. Só deste jeito poderia acompanhar o marido diplomata nas missões pelo mundo. Como ele a amou sem ser satisfatoriamente correspondido, Deus... Nas noites de inverno eles costumavam ouvir Chopin e Mozart abraçados em frente à lareira – faz frio na serra e quase todas as noites ela se via tentada a acende-la como antigamente. Só não o fazia porque não tinha mais quem catasse lenha suficiente para uma semana.

Enquanto pensava em todas essas coisas, sentiu uma ponta quase insípida de prazer ao reparar melhor nos seus gerânios, nas hortênsias, hibiscos, palmas...lindos. Eles faiscavam, ao contrário dela e do passarinho, que permanecia inerte no galho frio. É esse o motivo da infelicidade do passarinho – dizia-lhe naquele instante a dona da voz irritante: além de ser feio no corpo de rolinha, não é humano. E eis o seu conflito: ele queria ser o que não é. Ao contrário de você. No entanto, ponderava a mulher, ainda que ele se transforme num ser superior e evolua do pensamento ao raciocínio, não saberá o que é valioso na vida. Só lhe restará respirar, voar, comer minhocas... para sempre. E você, mesmo que deixe de ser o que não gosta de ser, permanecerá tola e contraditória, porque enganou a si mesma ao se acomodar com a vida de dona-de-casa com dons artísticos.

Fechou os olhos e fuzilou a dona da voz, ao mesmo tempo que sentia o grande mistério do passarinho martelando na sua consciência. Essa maldita curiosidade de entender o porquê de tanta tristeza! Passou então a sentir vontade de cortar o mal pela raiz, literalmente (ai, droga! Como me deixei queimar pelo cigarro?!), para que o passarinho sumisse dali e outros não fossem mais se empoleirar naquela árvore taciturna e engolida pelos segredos particulares de todos os seres animados que por ali rondaram nas noites calorentas de verão. Naquela noite daria uma festa, e ela, a árvore, não existiria mais e não dissecaria seus convidados tal qual fazia com o passarinho. É, pensou a mulher, profundamente orgulhosa e com um largo sorriso no rosto, eu posso dar uma festa para quantas pessoas eu quiser; minha casa é grande, tenho amigos inteligentes e engraçados, e inimigos fracos que procuram sempre me adular. Fitou então pela milésima vez o passarinho: que horizonte se estende além dele mesmo? Ah, ele levantou a cabeça! E olha só: vem vindo um outro passarinho...

O tal outro da mesma espécie pousou gracioso ao lado do desmazelado companheiro e o encarou, recebendo em troca um tímido piscar de olhos. Ficaram assim, um olhando para o outro, por um instante – que para a mulher pareceu a eternidade, já que começava a sentir as mãos e os pés demasiadamente enrugados – e de repente, sem aviso ou ensaio, voaram juntos rumo ao céu azul.

Ela, por fim cansada do descanso, cerrou novamente os olhos, como que para aproveitar os últimos segundos de sossego. Esqueceu do passarinho, esqueceu do testamento que mandara o advogado providenciar, esqueceu do ar condicionado que precisava ser consertado. Era apenas ela, os seus sais de banho comprados na loja de Mrs. Flanders, em Londres, e a sua banheira colonial adquirida por uma bagatela de um milhão de dólares. Esse é o real valor da vida, concluiu, realizada e amena por dentro, vazia e insatisfeita por fora. Mas de repente ouviu um longínquo pio, tão longe quanto a realidade da vida era para ela. Mais outro, um pouco diferente desta vez... os dois juntos, será? Abriu os olhos e lá, um pouco além do que a sua miopia era capaz de fazer enxergar com nitidez, ela encontrou as rolinhas, juntas, sobre o grosso galho da árvore mais frondosa que existia no verdejante jardim, a que mais cresceu e deu bons frutos. O passarinho cabisbaixo de antes alçava agora curtos vôos, acompanhado pelo outro (ou seria outra?). Pulavam de galho em galho animadamente. Também ele daria uma festa, afinal.

Partiram ambos lado a lado deixando-a para trás...

A mulher resolveu apanhar a taça de champanhe do chão, sem sentir entretanto nada pulsar dentro de si. Não há saída quando o assunto é segredo. Aproximou a taça dos lábios mas estacou abruptamente: um bichinho, um inseto asqueroso, nadava dentro do copo, tentando alucinadamente sobreviver por entre a espuma. Ele vai escapar – pensou, num misto de desejo e oração, sabendo que poderia fazer a diferença entre o existir e o não existir do bicho. Poderia salvá-lo.

Se viu assim reluzente e aliviada, apanhando-o cuidadosamente com as longas unhas para não desperdiçar o seu resto de vida. Depois, colocou-o sob o seu pescoço, próximo ao coração ofegante de muitos sentimentos. Entornou num gole só a bebida quase quente e finalmente se permitiu gozar de uma estranha alegria, lembrando-se, num luminoso raio, da maçã vermelhinha e ainda fresca, que rolava saltitante pela grama rumo ao formigueiro.

Pelo menos desta vez tinha uma companhia sincera com quem compartilhar as delícias da vida.



2 comentários:

  1. Boa noite, não irei escrever muito hoje, apesar que adoro, mas teu conto muito me envolveu e me vi em alguns trechos. Incrivel como determinadas historias possuem um enredo parecido não é mesmo? E nesse teu conto, não apenas senti uma parte de minha vida como vi historias de outras pessoas conhecidas minhas. Adorei teu conto e peço-lhe que deixe-me posta-lo em meu blog., tenho certeza de que as pessoas irão adorar tambem...Parabens! Espero tua resposta...Vou fazer festa em minha vida antes que seja tarde!

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    1. Olá, Simone. Fico muito feliz em saber que você gostou do meu conto, que se identificou com algumas passagens e que ele, de certa forma, te alertou para a necessidade de celebrarmos a vida, as pessoas, os encontros.
      É claro que você pode postá-lo no seu blog, tem minha autorização. Se puder, junto a ele, colocar o endereço do meu blog, agradeço. Assim os amigos que te acompanham podem também vir me visitar. A gente não escreve para si, embora eu cuide deste espaço como se fosse um diário, um canto terapêutico, entende? Depois você me passa o endereço do seu blog, está bem? Quero te retribuir a visita. Para mim, muito importante essa troca. Abraços.

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