Eu não estava nervoso.
Uma voz muito doce me confidenciava que eu ganharia aquele prêmio, ainda que a minha família me alertasse, carinhosa, quanto a possibilidade da perda.
Minha fé em mim estava inabalável. Sabia que tinha escrito um texto primoroso.
Preparei-me para a noite da premiação com zelo: queria estar bonito.
Naqueles dias de adolescência, embora fizesse literatura desde menino, eu sequer pensava em seguir carreira como escritor. Apenas fiz o que o regulamento do concurso previa e enviei , no último dia, as dez laudas da peça de teatro escritas em 15 minutos.
Eu não sabia que estava, na verdade, selando o meu destino; convergindo meus pensamentos, meus desejos profissionais para um único foco, o único ofício o qual eu posso afirmar quantas vezes forem necessárias, para quem quiser ouvir, que eu executo muito bem.
O local para o princípio de tudo era o Teatro O Tablado, no Rio de Janeiro, onde, após a apresentação da peça O Gato de Botas, seriam anunciados os nomes dos vencedores do concurso Agir Maria Clara Machado de Teatro.
Fachada do Teatro O Tablado, no Rio de Janeiro
Sem qualquer ansiedade, assisti à peça. E no final, como prometido, um homem subiu ao palco, convidou os responsáveis pela Editora Agir e a Maria Clara Machado em pessoa, e fez o anúncio. Quebrando os padrões, ele começou pelo primeiríssimo lugar. E eu, antes mesmo que ele pronunciasse qualquer sílaba, ouvi o meu nome ecoar pelo teatro. Era novamente aquela voz, que me avisara desde os minutos que comecei a escrever, em transe, a peça.
Foi rápido demais. Sob mil aplausos, me levantei do lugar na plateia e subi ao palco. Tímido, um tanto desengonçado, olhar abaixado: um menino de 14 anos de idade, suburbano, aluno de uma escola pública. Fiz uma rápida viagem ao Céu nos segundos em que me dirigi ao centro do teatro.
Enquanto cumprimentava todos que lá estavam para me receber, um séquito de repórteres e fotógrafos saltou sobre mim. Eu estava abraçado à Maria Clara Machado e completamente desorientado. Uma única pergunta me passava pela cabeça: "E agora, faço o quê?"
O ator Luis Carlos Tourinho, que interpretava o Gato de Botas, fez questão de voltar à cena para me cumprimentar. Mais fotos. Mais entrevistas. De repente deixei de ser o menino estranho, encolhido no seu canto, quase imperceptível, para me tornar o alvo de olhares, comentários e elogios.
No banco atrás do meu, na plateia, estava um rapaz que durante a apresentação da peça se vangloriava de que seria ele o vencedor do prêmio. Sequer chegou ao terceiro lugar. Ao lembrar disso, ao lado da Clara e do Tourinho, tive a constatação do meu talento. Do meu talento silencioso, que não faz alarde. Ali, a minha estrela estava brilhando como nunca. E a sua luz me apontava todo o caminho que eu deveria seguir a partir de então.
Segunda montagem de "O Gato de Botas", em 1997. Luis Carlos Tourinho interpretava o Gato
Ao chegar em casa, acreditando ter terminado o momento de glória, dormi tranquilo, sem esperar mais nada da vida.
Foi então que, no dia seguinte, recebi um telefonema:
–Você está no jornal!
Era apenas uma nota na coluna "Gente Boa", do Segundo Caderno do O Globo. O título era "Na estrada com um aval de peso". Dizia, no texto: "Nasce um escritor pelas mãos de Maria Clara Machado".
Algumas semanas depois o jornal O Dia, do Rio de Janeiro, entrou em contato: gostaria de publicar uma matéria a meu respeito. Foi assim que tive o meu primeiro "Perfil" publicado, com direito a foto e tudo.
Matéria do jornal O Dia - primeira reportagem com foto minha
Apesar de deslumbrado, não perdi de todo a minha razão e questionava o porquê de tanto interesse sobre mim. Não demorou muito para eu descobrir: uns dias antes da minha premiação, um rapaz, que também vencera um concurso literário em outro estado, foi desmascarado: sua mãe foi quem escrevera o conto. Era isso, então: a imprensa estava ávida para descobrir se não havia acontecido o mesmo comigo.
Fiquei mais de três horas conversando com a jornalista, que me enrolava numa teia de perguntas. como se estivesse interrogando um possível criminoso. E eu ali com ela, leve, confortável, em crescente demonstração das minhas capacidades criativas. Mostrei-lhe outras histórias minhas., que ela leu com cuidado. E quando ela saiu da minha casa, junto com o fotógrafo, segurou na minha mão, me olhou nos olhos e disse:
– Um dia eu ainda vou ter muito orgulho de dizer que fui a primeira jornalista a publicar o perfil do Rodrigo Lopes da Fonte.
Uma semana depois o jornal O Globo ligou. Queria me ter na capa do seu jornal de bairro. Dessa vez fui até a redação do jornal a fim de ser fotografado no seu estúdio. Antes, porém, dei uma nova entrevista, para uma jornalista tão simpática quanto a do O Dia.
Pela segunda vez no O Globo - desta vez capa do jornal
Novembro chegou e se foi tão rápido quanto dezembro. Ao longo desses dois meses, meu nome apareceu em outros tantos jornais - sem fotos, em colunas.
Eu ainda continuava um menino tímido, porém plenamente consciente do meu talento como escritor. Foi por isso que aceitei, em 1998, dar uma palestra no SESC sobre a minha participação no concurso para uma plateia composta por jovens estudantes da rede pública do Rio de Janeiro.
Em maio deste mesmo ano, o jornal Extra, recém criado, telefonou: queria saber o que eu estava fazendo. Mais uma vez eu estava nas páginas de um jornal - na verdade, na da revista "Canal Extra", com a mesma foto que tirara para O Globo. "Eu estou escrevendo uma peça de teatro., contei à jornalista pelo telefone mesmo, uma adaptação de Alice no País das Maravilhas, mas com características brasileiras".
A peça morreu no nascedouro, no entanto. Preocupado com outras questões da vida prática, não segui adiante com este projeto - que, coincidentemente, foi levado a cabo pela Luana Piovani.
Foi então que retornei ao confortável estado do anonimato.
Não me arrependo de ter aberto mão temporariamente da carreira como escritor em nome da minha formação escolar. Naquela fase da minha vida, eu não tinha maturidade nem conhecimento para meter as caras no mundo artístico. E como um vendaval que passou na minha vida, a atenção voltada para mim virou-se para outros artistas que vieram a seguir.
Não sofri: o que precisava saber, este reconhecimento me deu. Outras vitórias literárias vivi. Fui publicado
Experimentei
Hoje, retorno àqueles dias.
Neste ano de 2012 fará 15 anos que tudo começou.
Se eu tivesse seguido em frente e me dedicado completamente, de corpo e alma, destemidamente, estaria completando, portanto, 15 anos de carreira como autor de teatro e sabe lá Deus de quantas coisas mais. Mas quis a vida que eu seguisse outros rumos.
Agora, prestes a completar 29 anos de idade, eu tenho recuperado em mim a mesma inocência, a mesma força artística e auto-confiança daquele adolescente que ficou registrado nas páginas dos jornais. Com a diferença de que agora já não sou mais imaturo para a arte.
Tenho nas mãos todas as armas para me afirmar novamente como um escritor.
E como disse Moacyr Scliar, no prefácio da primeira antologia de contos na qual um texto meu foi publicado, a respeito de todos os escritores que ali estavam: "quem sabe não sai daqui o primeiro prêmio Nobel de literatura brasileiro?"
É o que eu quero.
Salve o dia 29 de outubro de 1997!
Salve Maria Clara Machado!



Bravo! Bravissimo!!!!
ResponderExcluirAdorei a novidade.
Não lembro daqui....