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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O MEU AMOR NÃO É DESTA TERRA!

Uma amiga me ligou logo cedo. Queria minha companhia.
De orientação católica, se preocupava com o que poderia acontecer em ambientes como aquele. Foi assim que ela começou a conversa, meio exasperada, meio tímida, logo que eu atendi o telefone. Não entendi nada, e quis saber o que ela queria dizer.
- Só me diz sim ou não: você pode me fazer companhia? - E baixinho: - não dá para falar por telefone; não é nada sério, mas... pode ou não?
A essa altura eu todo me tremia de curiosidade. Que estripulia, afinal, ela pretendia fazer? Respirei fundo e respondi que tudo bem; aonde nos encontramos e a que horas?
Chegando lá, a encontrei sentada num hidrante, o olhar distraído vidrado no nada. Parecia tensa. Não disse "oi" nem nada para mim. Apenas me estendeu isso:



Eu ri. O que significava aquilo? Era bobagem, gastaria o seu rico dinheirinho...
- Eu quero - me interrompeu - na verdade é um caso de vida ou morte. Tem um cara...
Ela não precisava dizer mais nada. Era mais uma vítima deste buraco negro que vem engolindo as pessoas. Atende pela alcunha de "paixão cega". Não falei mais nada, apenas acompanhei seus passos rua acima.
A casa da cartomante era bem humilde, decorada com simplicidade, remontando um ambiente completamente exotérico, cujas cores predominantes eram o vermelho, o amarelo e o preto. Em alguns pontos, imagens de bruxas, ciganas, duendes etc compartilhavam a função de enfeite com lenços coloridos que esvoaçavam e mensageiros do vento, que tilintavam. Quem nos atendeu foi a própria, uma mulher morena, excessivamente magra, cujos olhos fundos pareciam querer saltar das órbitas. Passava dos cinquenta anos e tinha a voz muito rouca. "A voz da tumba", lembro ter pensado. Minha amiga, ao contrário de mim, se sentia familiarizada, relaxada. Retribuía os sorrisos amarelos da cartomante como se fosse sua velha conhecida. Até aceitou o café que ela nos ofereceu.
- Vocês podem aguardar um instantinho enquanto eu me preparo - ela disse, sumindo logo depois por detrás das cortinas.
Eu cochichei para a minha amiga:
- Você já tinha vindo aqui?
- Não, mas a J. sim e disse que ela é ótima.
Eu olhei mais uma vez para o papelzinho, que ficara no meu bolso.
- Mas ela só cobra isso?
- Pois é... Não sei como consegui um horário. Foi milagre. Isso aqui lota, sabia?
A cartomante voltou.
- Pode entrar, amorzinho.
- A senhora se importa se ele me acompanhar?
A mulher me encarou. E eu pude ver que ela tinha uma bela catarata nas duas vistas, o que lhe dava um ar mesmo de bruxa de conto de fadas. Só faltava o gato preto ronronando por ali. Enviei-lhe um sorriso sem jeito. Se ela fosse boa adivinha teria sabido o meu desejo; teria me respondido: "não, prefiro inclusive que ele espere lá fora. Coitadinho, olha só: está sufocado pelos meus incensos". Porém respondeu, simpática:
- Claro que não! Pode entrar também, florzinha.
Eu ouvi bem? Ela me chamou de florzinha? Ok. Melhor não perguntar para evitar constrangimentos.
O quarto da consulta era apenas uma filial da sala de espera, apenas com a diferença de que num canto havia uma mesa redonda com uma toalha branca por cima, um copo cheio d'água e outro incenso fumegando. Sentei num banquinho desconfortabilíssimo, enquanto ela e minha amiga ficaram cara a cara à mesa. Observei tudo, anotando cada movimento na memória para poder descrever a experiência depois.
A cartomante, cujo nome era Consuelo, à medida que embaralhava as cartas do tarô, orientava:
- Concentre-se seriamente naquilo que você pretende saber e me diga qual é o assunto - fez uma pausa cênica, pousou o baralho empilhado à frente da minha amiga com os olhos cerrados e disse: - não precisa nem me dizer! Você quer saber sobre amor. Acertei?
- Ahan.
- Muito bem, então corte em três.
Minha amiga obedeceu. Consuelo apanhou o bolinho mais próximo a ela e foi abrindo uma a uma. E dizendo o que provavelmente minha amiga gostaria de ouvir pois pouco a pouco a expressão tensa com a qual a encontrei mais cedo foi se dissipando, dando lugar à luminosidade, à esperança. De vez em quando, Consuelo olhava para mim. Rapidamente. Provavelmente farejava a minha intenção de lhe avaliar. Não prestei muita atenção no que ela dizia à minha amiga: meus pensamentos estavam impressionantemente em Machado de Assis e em Clarice Lispector. E quando lembrei da Macabéa foi que deixei escapar um sorriso frouxo. E se tudo aquilo de bom que ela vaticinava não fosse realmente um engano, se na realidade acontecesse justamente o contrário? Ironia demais. Clarice riria.
De qualquer forma a consulta não demorou muito. Minha amiga queria apenas saber do amor. Tinha direito a três assuntos, dos quais abriu mão para não esquecer o que a levara até lá. Pagou Consuelo, agradeceu e foi indo em direção à porta. Tão rápido que mal tive tempo de lhe acompanhar os passos. Foi então que Consuelo me segurou. Um choque percorreu todo o meu corpo, que congelou.
- E você, não quer uma consulta?
- Nã...Não... Eu... - gaguejei, catando com os olhos algum outro ponto onde fixá-los senão os olhos esbranquiçados da cartomante - Eu sequer trouxe dinheiro...
Ela fez um muxoxo. Acho que alimentou alguma esperança de abrir as cartas para mim. Não pelo dinheiro, mas por alguma curiosidade mórbida.
- Uma pena - respondeu - eu acho que você deveria ouvir algumas coisas, sabe...
Eu não mordi a isca. Sorri, somente, dando-lhe já as costas. Mas minha amiga não resistiu:
- Que coisas? Boas ou ruins...? Ele...
- Não posso dizer, querida. Sinto muito. Não de graça. É por conta dos meus guias, entende?
Entendíamos perfeitamente, imagina...
Nos encaminhamos para a saída - eu cheio de alívio. Dos fundos da sala, no entanto, Consuelo gritou:
- Só uma coisa eu posso!
Nos voltamos a ela ao mesmo tempo:
- O seu amor não é desta terra!
E voltou para o seu quarto, perturbada, como se recém saída de um súbito transe.
Após nos encararmos um tempo, minha amiga e eu tomamos a rua. E não adianta puxar pela memória o que ela me falava com tanto entusiasmo acerca da sua consulta. Porque ecoava na minha cabeça agora oca aquela frase final, dita com força e escárnio:

O seu amor não é desta terra!





2 comentários:

  1. Gostei de ler seu texto e sabe porque? Cresci e vivenciei varios momentos envolvida com doutrinas diversas, crenças de pessoas adultas que de certa forma, envolvia-nos. Mas cresci, como todos cresceram um dia, e tenho minhas proprias crenças...Minha unica crença é em DEUS, e como eterna criança, acredito em duendes e fadas, como nossos anjos da guarda(tenho motivos para isso). Digo sempre: se nós, seres humanos, existimos porque não seria possivel a existencia de outros seres em outros cantos? Afinal, o Universo é imenso e jamais teremos a certeza de que somos unicos.Não tenho medo de nada, mas não mexo com nada que não conheço...Mas é o segredo? Não te deixou curioso? Não voltastes mais la? Eu voltaria...

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    1. Eu também, Simone, não sigo doutrinas: acredito em Deus - mas do meu jeito. E Ele para mim não tem face, não faz exigências: está totalmente a meu favor. De modo que não fiquei curioso para saber do resto da história. Ao contrário dessa minha amiga, pouco me importa se passarei esta vida sozinho ou acompanhado, se serei rico ou pobre. O importante é eu manter a minha mente sã, longe do colapso moral que anda destruindo a inteligência das pessoas. Enquanto eu não me vir mergulhado neste círculo vicioso no qual muitos estão até o pescoço, me considero uma pessoa feliz. E de sorte. Grande abraço.

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