Na última semana de fevereiro a imprensa ficou toda acesa. O motivo, o mais absurdo: o novo piso salarial dos professores. Reajustado em 22% com base no valor anual gasto por aluno, registrado pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB). Agora, o salário passa a ser de R$1.451,00 para a jornada semanal de 40h. Não demorou muito para que os governantes pulassem que nem pipoca, alegando dificuldade financeira para pagar o valor determinado. O ideal, segundo eles, seria que o tal reajuste acontecesse com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação.
Assim, caso se altere o critério de correção do piso, o valor estipulado cairá drasticamente.
Enquanto o bafafá do trelelê acontece em Brasília, fico pensando nos meus colegas professores (sim, colegas, pois embora eu não exerça efetivamente a profissão, me formei tal e qual). Tão mal remunerados. Tão desrespeitados. E tendo de fazer um milagre por dia.
Uma grande amiga minha, que está há 14 anos no magistério, me contou ontem que boa parte dos seus alunos do 3º ano, cuja faixa etária é de 9 anos, não sabe ler, ao passo que seu filhinho de 4 já reconhece todas as letras do alfabeto. Por que as crianças mais velhas não leem, então? Deficiência da educação brasileira? Não apenas. O problema vem da raiz, do seio da família. São crianças sem qualquer estímulo familiar, sem qualquer condição propícia à aprendizagem. Chegam na escola absolutamente cruas, zeradas, famintas, maltratadas, e cabe ao professor a dupla função de educar e ensinar.
Não por acaso muitos professores se proclamam "educadores". Sem dúvida o são. No entanto toda comunidade passou a compreender erradamente o termo e delegar a ele - e ao Estado - uma obrigação que é sua. Matriculam seus filhos na rede pública, viram as costas e seguem com a vidinha. A escola educa, alimenta, ensina, doa material escolar, uniforme... Por vezes até auxilia na renda familiar com outros benefícios. Um exemplo concreto? Uma consulta a um oftalmologista particular - pago com o dinheiro da escola - porque a aluna "é maluca e se joga na frente dos ônibus", como diz a mãe, com voz esganiçada e mãos nas cadeiras.
Esses e tantos outros casos só se acumulam no dia a dia da escola - e se tornam obrigações, fardos. E o pobre professor, aquele que talvez terá seu salário re-re-reajustado para baixo, fica cada vez mais corcunda, mais necessitado de análise e remédios de tarja preta: longe de ser o herói da imaginação de qualquer criança.
Sim, como dizia Paulo Freire, "Estar na sala de aula é administrar conflitos".
Só que são muitos... São demais... Demais, Paulo...



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